Publicado em 16 de maio de 2024

Carta aberta de moradora do Rio Grande do Sul

Se você não sente nenhuma empatia pelo o que está acontecendo no Rio Grande do Sul, talvez essa carta aberta da gaúcha Ana Paula Rabello, de 51 anos, que vive os desdobramentos dos temporais e enchentes que começaram no fim de abril possa de alguma forma tocar seu coração.

Cerca de 90% das cidades gaúchas foram afetadas pelos temporais e enchentes. Crédito: ICICT/FioCruz

É indescritível experimentar e sentir esse misto de impotência, culpa e até vergonha. Esses sentimentos não emergem pela tragédia em si, mas pela forma como ela se desdobra. Aos 51 anos, eu nunca tinha vivenciado nada parecido, apenas o que via na televisão, incluindo operações de resgate. Admito que fui uma das que ignorou os avisos de que algo grave se aproximava. Inclusive no dia em que presenciei as ruas de Porto Alegre sendo engolidas pela água, continuei perplexa, tirando fotos na Rua dos Andradas, minutos antes de a inundação atingir o supermercado onde eu ainda estava.

Talvez isso explique minha vergonha pessoal e minha indignação. Não estávamos preparados. Do alto do meu apartamento, na Praça dos Três Poderes, no coração de Porto Alegre, eu acreditava estar segura. Pensava que seria apenas mais um alarme exagerado. Mas então, aconteceu. As águas invadiram a Andradas, minha mãe, que é acamada, ficou ilhada, apartamentos e comércios foram destruídos, e o medo se instalou profundamente.

As notícias sobre a magnitude da tragédia começaram a surgir. Nada impedia o avanço das águas – nem comportas, diques, nem sacos de areia. Tudo era em vão. Meu filho chorava, e eu tentava tranquilizá-lo, dizendo que estávamos vivos e isso que importava. Percebemos que vivíamos sob um desgoverno, sem líderes capazes, e que nossos impostos não garantiam nem o uso básico das instalações públicas em momentos de crise.

Neste cenário de desespero, surgiram os “heróis”. Nomeamos assim todos aqueles que vieram ao Rio Grande do Sul trazendo comida, água e recursos. A ajuda se tornou um símbolo de salvação. A tragédia transformou nosso estado no lugar mais fotografado do país, com todos buscando seu momento de heroísmo. Se o preço dessa ajuda é uma foto ou um vídeo, estamos dispostos a pagar. Ainda hoje, novos heróis chegam, atraídos pela visibilidade dos primeiros.

Mas é essencial reconhecer que os verdadeiros heróis foram as pessoas comuns, aquelas que fizeram doações, pisaram nas águas e salvaram vidas. Hoje, ainda tento trabalhar, mas me sinto envergonhada e culpada ao pensar em como ensinamos as pessoas a pagar impostos em um país que não prioriza suas necessidades básicas, de humanidade e MÍNIMA dignidade.

Vejo esforços para manter a aparência em prédios públicos enquanto faltam necessidades básicas como água potável e energia elétrica. Algumas autoridades escondem doações para se promoverem como salvadores. Apesar disso, há prefeitos que demonstraram verdadeira liderança.

Hoje, sinto-me privilegiada por estar viva e que os “meus”estão vivos. Mas também estou triste pelos que se foram e grata às pessoas que ajudaram sem saber a quem estavam ajudando. A catástrofe desenvolveu em mim um tipo de pânico que me faz repensar minhas escolhas e desejos futuros.

Rezo para que “depois disso” chegue logo. Parece que essa tragédia despertou um gigante adormecido – o povo brasileiro que não desiste nunca.

Por: Ana Paula Rabello

Situação atual

Segundo a Defesa Civil, 151 pessoas são vítimas dos temporais e enchentes no Rio Grande do Sul entre o fim de abril e a primeira quinzena de maio. 104 pessoas ainda estão desaparecidas. Além desses números, é imensurável como a população foi e está afetada. O que conheciam como vida (ir ao trabalho, comer um lanche na padaria, levar o filho pra passear de bicicleta) está debaixo d’água.

O governo estima que 2,2 milhões de gaúchos foram afetados pela tragédia. Dos 497 municípios do RS, apenas 36 não registraram transtornos.

Doe para o RS

1. Governo do Rio Grande do Sul

Chave PIX: 92.958.800/0001-38 (CNPJ)

Nome: SOS Rio Grande do Sul

Banco: Banrisul

2. Comunitas

Organização montada com foco na reorganização de escolas para retorno das aulas.

Doações para ações de reestruturação: CNPJ 03.983.242/0001-30
Banco do Brasil – 001
Agência 1195-9
Conta Corrente 600.650-7
Doações para ações emergenciais: PIX – 92.958.800/0001-38 (CNPJ)

Para mais informações, entre em contato reestruturars@comunitas.org.br.

3. CUFA (Central Única das Favelas)

A entidade recebe diversos itens para doação, como: colchões, cobertores, mantas ou cobertas térmicas, alimentos, produtos de higiene e itens de limpeza.

Para contribuições em dinheiro, PIX: doacoes@cufa.org.br.

4. GRAD Brasil

A organização tem atuado no resgate de animais, com veterinários e voluntários.

Para contribuir com o trabalho da ONG, acesse: doe.gradbrasil.org.br.

5. Correios

Vá em qualquer agência Correios e doe de graça. Para ajudar na separação dos itens, embale e identifique o tipo de material.

Para entrega mais rápida, os Correios pedem que a população do Sudeste e do Sul concentre doações de água potável e as pessoas das demais regiões, em itens secos, como: ração para pets, material de limpeza seco, material de higiene pessoal e alimentos da cesta básica.

O que doar?

A Defesa Civil atualizou hoje (16) os itens que mais faltam no Rio Grande do Sul:

  1. Água e cesta básica (verifique a validade de todos os itens e não doe se estiverem vencidos ou perto do vencimento);
  2. Fraldas (geriátrica e infantil);
  3. Itens de higiene pessoal (escova de dente, creme dental, sabonete, absorventes, papel higiênico);
  4. Itens de limpeza (secos, como sabão em barra, sacos de lixo, panos de limpeza, luvas, escova de limpeza, esponjas).

Como ajudar na triagem das doações?

  1. Cestas básicas devem ser entregues fechadas ou com os alimentos reunidos em sacos transparentes.
  2. Itens de higiene pessoal devem estar separados por kits em sacos transparentes.
  3. Organize por categorias e coloque em caixas ou sacolas que podem ser amarradas ou fechadas.
  4. Roupas devem ser separadas por tamanho e peça, em sacos transparentes e, se possível, com rótulo de tamanho.
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Postado por

Juliana Garcia

Sou jornalista, apaixonada por audiovisual, redes sociais, pessoas e histórias. Mas não só. Gosto da arte, da natureza, da vida. Que de vez em quando nos faz de cactos, ensina a sobreviver em meio às adversidades. E tá tudo bem, porque tudo é questão de perspectiva. Concorda? 

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